21 de set. de 2011

Entrevista com Ariano Suassuna


O LIVRO, A PEDRA E O ENIGMA

Carlos Tavares
  
Ariano Suassuna
Depois de anunciar diversas vezes a data de lançamento de seu novo livro e em seguida recuar, o escritor paraibano Ariano Suassuna, 84 anos, resolveu fazer um acordo com a editora José Olympio e parar de falar sobre o ponto final de uma obra que considera o livro de sua vida. Em entrevista ao Correio, Suassuna confessa que tem de terminar logo a narrativa que está consumindo, de forma interminável, mais de 30 anos de sua existência. “Não tenho mais nem idade para escrever, este é o plano literário de minha vida, o último livro”.

          
Apesar da insistência no diálogo das datas, ao longo da entrevista, em sua casa, no Recife, Suassuna deixou escapara apenas que publicará a obra até o fim de 2012. Um livro que funde romance, poesia e teatro, música, cordel e artes plásticas, como se agora o sonho de Quaderna de passar a limpo a sua vida e a sua tentativa de reconstruir o país e o Sertão por meio do sonho e da fantasia, virasse verdade. Como se a obra circulasse agora entre o Sertão e o mar, e vice-versa, e reunisse erros e revisões em prosa e verso, sobre a interpretação do Brasil, a religião, a realidade e o sentido da ficção.
  
Entre outras revelações, o autor de farsa da boa preguiça, revela, pela primeira vez a um veículo de jornalismo, que conseguiu, enfim, perdoar os assassinos de seu pai, João Suassuna, ex-governador da Paraíba, morto a tiros por adversários políticos, em 1929. “Foi difícil, mas consegui. Se eles estão no inferno e se dependesse de uma decisão minha, eles saem agora”. Para Suassuna, o Brasil melhorou, em termos de indicadores sociais, mas a reforma moral e ética na política ainda vai demorar. Leia trechos da conversa.
Ariano, gostaria de começar falando sobre O rei degolado, a segunda parte de A pedra do reino, projeto que você deixou inconcluso e que agora pretende retomar com o novo livro. Por que você interrompeu o romance de forma tão repentina?

É que, lá pela década 50 do século passado, eu resolvi escrever um livro sobre meu pai (João Urbano Pessoa de Vasconcelos Suaçuna, que foi presidente da Paraíba de 1924 a 1928) chamado A vida do presidente Suassuna, cavaleiro sertanejo, mas a carga de sofrimento foi muito grande e eu desisti. Foi quando, em 1958, comecei a tomar as notas daquilo que seria, depois, O romance da pedra do reino. Bom, eu escrevo mais de uma versão das coisas, como você sabe, e uma delas eu dei a Germana, minha irmã, para ler. Aí ela disse, Ariano, você notou que a morte do padrinho de Quaderna (em A pedra do reino) é a morte de João Dantas? Eu não tinha percebido e então eu vi que estava escrevendo uma coisa muito autobiográfica. Depois que ela chamou a atenção para isso, na versão seguinte eu acentuei um pouco esse tom, mesmo sem notar. Não que os Quadernas sejam os Suassunas ou que os Garcias-Barreto sejam os Dantas-Villar, porque são recriações ficcionais e caricaturais das duas famílias. Inclusive, meu bisavô era um homem violento, como o próprio avô de Quaderna era (Dom Pedro Sebastião Quaderna). Bom, então eu terminei A pedra do reino e comecei a escrever O rei degolado, mas, eu percebi que aquilo que existia de autobiográfico se acentuou tanto, em minha opinião, que passou da medida, sabe?

Por quê?

Se você prestar a atenção, o Quaderna que está no rei degolado é um Quaderna completamente diferente do Quaderna de A pedra do reino...
É um Quardena mais trágico, mais sofrido.
Exatamente. Mas aí quem estava falando não era mais Quaderna, era Ariano, entendeu? Por isso eu desisti. Parei com O rei degolado porque não era mais Quaderna que falava, era Ariano. Eu cheguei a escrever duas partes, além dessa, que foram publicadas em folhetins, no Diário de Pernambuco. A primeira é Ao sol da Onça Caetana e a segunda chama-se As infâncias de Quaderna. Mas vou recuperar tudo nesse romance inacabado.


Ariano, quando é que você, finalmente, vai publicar esse livro?

Rapaz, eu já respondi isso tantas vezes que eu fico meio sem jeito, não sabe? Daqui a pouco ninguém acredita mais nesse livro. (Risos) Por isso mesmo não tenho mais a menor confiança em datas e não vou mais anunciar quando vou publicar.

Por que essa demora?

Você sabe que eu tenho um espírito muito exigente. Então, eu quero terminar esse livro de uma maneira que eu tenha dado o máximo de mim. Porque eu não tenho mais nem idade mais para continuar escrevendo. Esse é o livro da minha vida e é meu último livro. Então eu só publico quando eu estiver completamente convicto de que eu dei o máximo de mim. Quem quiser ler que espere.

Já está com mais de mil páginas?

Olhe, eu não posso lhe falar não. Depois desses anúncios todos, eu prometi à minha editora (José Olympio) que não ia falar mais nada. Vou repetir apenas o que já disse antes: o livro é a reunião de toda a minha obra, uma revisão de tudo o que fiz. Porque uma coisa que sempre me incomodou é que eu sou mais conhecido como dramaturgo, menos como romancista e completamente desconhecido como poeta. Em minha opinião, contudo, a minha poesia é a matriz criadora de tudo que escrevi.

Vamos falar agora sobre o Sertão: por onde você passa hoje em dia não se vê por lá mais vaqueiros a cavalo, eles agora só andam de moto. Como você vê essa transformação?
Olhe, eu acho que é uma coisa inevitável e é comum. Pois o homem sertanejo que anda de moto é o mesmo que andava e anda de cavalo em algum lugar. O ser humano é o mesmo, embora haja uma transformação evidente. Se o meu Sertão pintado nos meus romances, peças teatrais e poesia é um Sertão bruto, despojado e pobre, é exatamente por isso que ele é um Reino. É exatamente isso que me dá coragem para enfrentar as coisas e lutar para que a pobreza e a miséria não continuem a castigar esse Sertão. Os heróis da minha epopéia serão sempre estes da terra pedregosa, crestada pelo sol e enriquecida pela força humana de lá. O Sertão sempre será, para mim, um território sagrado e todos que pisarem nele terão que respeitá-lo como um lugar sagrado.

Mas será que o Sertão mítico e encantado de Suassuna só vai existir agora na ficção, na poesia e na memória?
Mas isso não é suficiente? Se não for, eu vou tentar fazer o meu Sertão do meu jeito, certo? Se o que eu escrever prestar, fica. Do mesmo jeito que a gente lê Dostoiévski (não estou me comparando a ele não, mas somente me colocando na mesma linhagem) pensando na Rússia de seu tempo. Porque Dlostoiévski é profundamente ligado à sua geografia, à sua cultura, assim como Tolstói, como Gogol. Eles só poderiam escrever o que escreveram lá na Rússia. O Dom Quixote só poderia ser escrito na Espanha de Cervantes. Mas a Espanha de Cervantes não é a de hoje mais não. Dom Quixote, pelo menos, ficou e fixou a Espanha do tempo dele. Proust trata disso muito bem nos livros de Em Busca do Tempo Perdido. Ele sente o passar do tempo, ele sente o tempo modificando inapelavelmente aquilo que ele conheceu menino, mas ele diz: eu consegui me segurar nesse tempo; é tanto que o último volume se chama O tempo recuperado. Os seis primeiros são Em busca do tempo perdido. Então, se eu conseguir fazer uma obra de qualidade, mostrando que o que está nela era e é o Sertão, o meu Sertão, então eu fiz o que estava ao meu alcance.

O problema que eu vejo em relação ao Sertão de hoje é o mesmo da cidade, com a desvalorização cultural. Você não acha que isso empobrece a terra e representa uma espécie de falência dos valores?

Mas isso é a passagem do tempo. Isso é apenas uma mudança e eu não acredito na noção de progresso em arte. Antigamente o pessoal achava que um pintor do século 18 era necessariamente melhor do que um pintor do século 13. Ora, se a pessoa fizer uma boa obra, ela vai ser contemporânea eterna de todas as gerações. Não existe progresso em arte, existe mudança. Agora, não acho que nenhum progresso tecnológico, ou econômico, modificou nem vai modificar a essência do ser humano no Sertão ou na cidade. O que interessa é fazer uma obra boa, mesmo que esse Sertão mude.

A idéia central de A pedra do reino é um Sertão “terrivelmente belo”, como diz Quaderna. Esse contraste entre o terrível e o belo é explorado exaustivamente em tudo o que você escreveu e isso serve para a própria vida que, segundo o mesmo Quaderna, é um jogo perdido. Você ainda pensa assim?
Quando eu me expresso assim sobre o Sertão, estou pensando em Plotino (pensador egípcio, autor de As Enéadas, nascido provavelmente em 270, depois de Cristo) que interpretou o sentido da beleza como sendo a intensificação do ser e da verdade. Ele afirma que “a Beleza é os seres em máximo de ser” e eu carreguei isso para dentro de minha idéia de Sertão. Por isso Quaderna afirma que o Sertão é a mais verdadeira das coisas, e por isso terrivelmente belo, de uma beleza convulsa, ás vezes destruidora e mortal, mas uma beleza viva e do bem.

Há mais de 20 anos, na entrevista de 1987, você estava decepcionado com a classe política brasileira. Você mudou de opinião?
Eu acho que melhorou muito, embora as mudanças morais da humanidade sejam lentas, é um processo tudo isso.  Vejo que a distância que separa os privilegiados dos despossuídos no Brasil não está resolvido, é claro, mas está muito menor. No governo Lula a gente atingiu o índice mais baixo de pessoas submetidas à miséria, que era 35%, quando ele assumiu. Hoje, está em 18%, o que ainda é um horror. Mas nunca na história brasileira houve uma redução da miséria como essa. Então, eu ainda tenho esperança.

Mas nesses casos de corrupção, de ética política, você acha que mudou também?

Como eu disse, as mudanças sociais e políticas são lentas. Pois, normalmente, nós temos uma tendência a identificar o tempo histórico com o tempo da nossa biografia. A mudança moral, principalmente, o progresso moral e político da humanidade não mudam na velocidade que nós queremos. Vou lhe dar um exemplo: entre os grandes generais da antiguidade, Júlio César era considerado um sujeito altamente generoso e magnânimo porque no tempo dele os generais, quando tomavam uma cidade, cortavam as duas mãos de todos os homens válidos para que eles não pegassem em armas novamente. Júlio César só cortava uma e com isso foi considerado um sujeito generosíssimo (risos). Mas foi o Cristo que mudou isso quando ele disse que somos todos irmãos, filhos do mesmo Deus. Então, já se passaram dois mil anos e quando chegamos ao século 20, aparecem um Hitler, que matou 6 milhões de judeus, e um Stálin que fuzilou 10 milhões de pessoas. Mas é isso, a evolução da humanidade é lenta por natureza. Então eu acho que o Brasil do jeito que está hoje, está melhor, sim.

Ariano, notei na releitura de O rei degolado que você, de certa forma, faz uma crítica aos conceitos de Euclides da Cunha em relação ao sertanejo, quando Quaderna afirma que, “na maior parte dos casos o perdão do sertanejo é quase sempre falta de coragem para a vingança”...
Não, não, na verdade ele se rebela, é mais uma maneira de dizer que ele, assim como o autor, tem horror à hipocrisia. Veja que ele disse “na maior parte dos casos”. Você sabe dos problemas que vivi e passei a vida toda sofrendo com isso. Mas eu me declaro um cristão, sou filho do Cristo e sei que Cristo manda que a gente perdoe os inimigos.

Você perdoou os assassinos de seu pai?

Olhe Carlos, na minha visão atual eu teria de perdoar os assassinos de meu pai, mas isso não é fácil não (pausa)... É muito difícil, entende? Inclusive, você pode ver, no Auto da Compadecida, a vingança está transmutada, mas ela está lá. No entanto, quando eu tinha mais ou menos 80 anos, eu pensei o seguinte: eu não acredito na eternidade do inferno. Eu acredito no inferno, mas não na sua eternidade. Porque se houvesse inferno absoluto e eterno, o demônio seria tão poderoso quanto Cristo. A redenção de Cristo não seria total, e eu acho que ela foi. Eu acho que no fim das contas, até o demônio será perdoado. Então, você tem a saída do inferno para o purgatório e do purgatório para o céu. Eu acho que não pode haver punição total e absoluta, senão seria o demônio igual a Deus. E absoluto mesmo só existe deus, ao menos para mim.

Você é um homem do perdão, é isso?

Sim. Quando eu completei 80 anos, como eu disse, eu me fiz uma pergunta sobre os assassinos do meu pai (João Suassuna foi morto a tiros no Rio de Janeiro quando Ariano tinha 4 anos) e concluí que, se eles estão no inferno, a essa altura, e se depender de uma decisão minha, eles saem hoje mesmo (com emoção).

Você se sentiu melhor com isso?

Muito melhor.

Essa atitude tem muito a ver com o que a sua mãe (dona Rita de Cássia) defendia e tentou passar para você e seus irmão: o sentido da não-vingança...
Foi exatamente isso. Mas, ela mesma, um dia, quando já tinha passado dos 90 anos, ela chegou junto de mim e disse: “Meu filho, eu consegui perdoar os assassinos de seu pai”. Veja bem, conseguiu isso aos 92 anos. E eu fui influenciado por ela, sim. No fim, chegamos à conclusão que a vingança é um sentimento menor, negativo, e se você se apegar a ela, se iguala ao outro.

Ariano, voltando a Quaderna e Suassuna, esse choque entre autor e personagem é sempre inevitável. Você disse uma vez que Quaderna era um personagem secundário em A pedra do reino, mas que ele insistiu tanto em ser o personagem principal, que acabou conseguindo...
É verdade, é verdade, ele me venceu (risos).

Quaderna diz em uma das partes de O rei degolado que a história que ele narra é apenas um esboço, como se estivesse antecipando esse livro que você está fazendo, e que um dia o sonho vai unir o país. Esse dia ainda está muito distante?
Sim, está, e não sei se esse sonho vai unir o país e a humanidade, mas a idéia é essa. A história humana é uma caminhada ao absoluto; é lenta e passa por muitos percalços.

Você acha que esse livro sai dentro de alguns meses, Ariano?

Olhe, eu acho que para o ano ele sai. Eu acho que agora ele sai.

Um dos sonhos de Quaderna é descobrir, dentro das pedras do reino, em Belmonte (PE), o grande segredo. Que segredo é esse?
É o segredo da vida, o enigma do mundo e da vida, que é feito do que a gente ignora, do desconhecido, do injusto, por que tudo na vida é um nó. Eu já disse em um soneto que só depois da morte eu saberei o segredo que me persegue, porque o laço do destino não houve quem desatasse. Para mim, então, é esse nó de agonia uma só busca, embora não haja uma clarificação completa desse segredo. Mas é isso, porque solução não tem não. E eu acho que esse conhecimento (do enigma, do sentido da vida) a gente só vai ter depois da morte com a união com Deus. Porque a vida não tem sentido nenhum, do ponto de vista humano. Por isso que foi necessária a vinda do Cristo.

Por quê?

Porque ele, sendo filho de Deus, nos abriu o caminho. A questão, Carlos, é que a humanidade é um ser em processo. Um ser em caminho, em direção ao absoluto e esse caminho quem abriu foi o Cristo.

Vou fazer uma última pergunta: o que o levou a modificar tanto esse livro?

Nele, pela primeira vez, eu consigo juntar meu romance, meu teatro e minha poesia. Então, é o livro da minha vida. Estou passando a limpo tudo o que eu fiz, tudo o que vivi e o que pensei.

Correio Brasiliense